Pastoral Fé e Política: “Quem não luta pelo futuro que quer, tem que tolerar o futuro que vier”

“Quem não luta pelo futuro que quer, tem que tolerar o futuro que vier”. O tema foi a base do debate na reunião da Pastoral dos Políticos Católicos e Cristãos do Regional Leste I, que aconteceu no dia 28 de julho na Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Centro do Rio de Janeiro. A sala que recepcionou o evento tem grande importância histórica para o Brasil, em especial para a população afrodescendente. No local foi redigida a Lei Áurea e, ainda, a carta do príncipe D. Pedro, de onde foi anunciada da sacada do prédio, sua leitura. A data ficou conhecida como dia do “Fico”.

Dom Roberto, Bispo Diocesano de Campos, conduziu a reunião e destacou como pontos principais: a necessidade de conscientização da cidadania dizendo não ao voto branco e nulo; a crise ética e de valores entre os políticos – conclamando o voto contra a corrupção; a importância da internet na eleição deste ano e alertou sobre a fabricação de imagens de candidatos através da mídia.Ele incentivou a escolha de candidatos a partir da análise do Brasil que pensamos e queremos, com urgência.

“Precisamos de uma nova abolição por todas as classes políticas através da educação. Queremos cidadania plena para todo o país. Precisamos dizer não ao voto branco e voto nulo, pois eles não anulam uma eleição”.

A ética e a imprensa foram mencionadas como assuntos para a população ficar alerta.

“A mídia fabrica imagem. Não votemos em mídia”, destacou Dom Roberto.

O tema também foi levantado por Edileia, da Irmandade.

“O povo não acredita mais em discursos bonitos. Qual o compromisso dos políticos católicos com a religião católica? Quem não tem valor, personalidade, dignidade pessoal, não será a politica que vai dar”, questionou.

 

Já o tema família foi abordado tanto por Dom Roberto, quanto por Lúcio Machado.

“Um projeto de país começa com um projeto de família. Rui Barbosa dizia: ‘O que é a Pátria, senão a família amplificada?’ A família é a célula primordial, o tecido básico. Qualquer política pública que não envolva a família está fadada ao fracasso.”, ressaltou Dom Roberto.

Lúcio Machado, da Pastoral Familiar, lembrou que o exemplo em casa é o que o filho vai se espelhar para agir fora das quatro paredes, inclusive na política.

“A destruição da família é a desconstrução de toda uma sociedade”, destacou.

 

Iniciando sua fala com uma história, Ivanir dos santos, pré-candidato ao senado e afrodescendente contou sobre uma mulher, prostituta da Praça 11, que veio ser empregada doméstica no Rio de Janeiro e conheceu um baiano e engravidou. Aos oito anos esta criança foi raptada pela polícia, colocada na Funabem. Com 14 anos ele voltou à comunidade onde morava para encontrar a mãe e recebeu a notícia que ela morreu. A versão oficial é de que ela havia jogado álcool no corpo e colocado fogo. Na fase adulta ele descobriu que na verdade ela foi assassinada por um policial.

“A mulher da história é minha mãe. Luto por direitos humanos. Por isso, minha candidatura é pelo diálogo”, afirmou.

Já o dirigente nacional, Bruno Tetê, ressaltou a importância dos pastores terem o cheiro de suas ovelhas e questionou: “Onde está a nossa catolicidade? Eu acredito em um Cristo que sente o cheiro das ovelhas, da democracia, do diálogo e não da guerra”.

 

 

 

Zé Augusto Nalin, pré-candidato a deputado Federal, lembrou dos ensinamentos que o local trouxe . Na sala onde ele falava foi redigida a Lei Áurea. E então, lembrando da história desafiou:

“O Brasil só é para todos à medida que eu acredito que o Brasil é para mim. Se eu não acreditar, vamos ficar marcando passo. Dois milhões de pessoas deixaram de votar em um universo de 9,5 milhões na última eleição. A pergunta é: se eu votei ou não. Temos que conclamar as pessoas  a fazerem a reflexão do motivo pelo qual elas não votaram.  Não adianta ficar reclamando, apenas”.

A Pastoral foi criada em 1989 com o objetivo de alimentar a dimensão ética e espiritual que deve animar a atividade política. Mensalmente a reunião acontece em uma paróquia da região de alcance do encontro. O próximo encontro está marcado para o dia 18 de agosto no Centro de  Formação Diocese de Campos dos  Goytacazes.

 

Museu do Negro

 
O local de reunião deste mês de julho da pastoral é emblemático e por isso, de forma diferenciada, a reunião terminou com uma aula, ministrada pelo Historiador Ricardo Passos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Na Rua Uruguaiana, 77, está localizada a Igreja Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. O segundo andar da construção abriga o Museu do Negro.

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1938, sua construção remonta a 1640.  A casa foi construída pelos negros de Angola, fundada pelos alforriados e escravos.

Mas o Museu foi fundado oficialmente em 1969, após o incêndio que desfigurou a igreja e destruiu parte do acervo. É possível observar imagens sacras, quadros, peças de tortura, fotos, artesanato e até a imagem da escrava Anastácia, além de jornais da época da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel. E também o molde em madeira do mausoléu da princesa Isabel e de seu esposo Conde D´Eu. Existem ainda quadros e outros objetos doados por donos de antigas fazendas, inclusive um manuscrito de 1572 de Luís de Camões.

A sala onde aconteceu a reunião da pastoral – Salão Consistória – foi o local em que a carta do “Fico” foi redigida em 1822. Também foi o Senado Imperial, Academia Imperial de Medicina e abrigou dezenas de reuniões de abolicionistas. Destaque para a toalha de mesa bordada recentemente restaurada.

É possível visitar o local de segunda a sexta-feira durante o horário comercial e conferir inclusive exposições de fotos como das fotos que mostram um pouco deste tour pelo espaço.

 

SHARE